A eventual troca do comando do país pegará a economia em um momento no qual crescem os sinais de que o pior passou para o setor privado, enquanto o setor público continuará em uma situação ainda muito delicada por conta do expressivo desequilíbrio fiscal. Os pilares que abrem espaço para uma retomada do setor privado são a confirmação de uma trajetória mais benigna da inflação, a estabilização da queda dos índices de confiança empresarial e do consumidor, o menor risco de nova desvalorização do real e a melhora do cenário externo em comparação ao quase caos desenhado na virada de 2015 para 2016, quando cresceram temores em relação à China e aos preços das commodities.

Havia previsões de que o barril de petróleo poderia ficar muito tempo abaixo de US$ 30. Esse cenário não vai ajudar 2016, mas sugere um 2017 melhor, na avaliação de alguns economistas. Em parte, dizem eles, o pessimismo com o fiscal e a crise política escondem os embriões da recuperação, que já estão colocados. A economia piorou muito no primeiro trimestre e ainda vai cair nos próximos meses, o desemprego vai aumentar, produção e vendas ainda serão negativos, mas o fundo do poço está próximo. “E esses elementos positivos [recuo da inflação, confiança estável e setor externo] podem ganhar ainda mais tração com a mudança de governo”, diz o economista-¬chefe do banco Fibra, Cristiano Oliveira.

Ele espera 1% de crescimento do PIB de 2017, mesmo se Dilma Rousseff continuar na Presidência, e algo perto do dobro (em estimativa ainda preliminar), se o vice¬presidente, Michel Temer, assumir e indicar algumas reformas. Luiz Carlos Mendonça de Barros, ex-presidente do BNDES e hoje empresário do setor de caminhões, não vê espaço para a aprovação de reformas estruturais em uma eventual gestão de Temer, mas mesmo assim espera uma recuperação da economia brasileira bem superior ao que hoje está projetado pela média dos analistas.

De acordo com o boletim Focus, o PIB de 2017 deve crescer apenas 0,2%. Na avaliação dele, os economistas estão subestimando tanto o impacto da recessão sobre a inflação (que abre espaço para queda da taxa de juros) como a capacidade de recuperação cíclica da economia brasileira. “No começo do ano, tinha economista projetando inflação de 9% a 12% para este ano”, diz ele. “As expectativas e o risco fiscal são importantes, mas é preciso olhar para a teoria econômica. Estamos vendo o que o hiato do produto está fazendo sobre a inflação. É impressionante.”

Para ele, há sinais de convergência da inflação, o que permite juros menores em uma economia com grande ociosidade e que pode ser beneficiada, adicionalmente, pela melhora da confiança com a troca na Presidência. “Empresas com capacidade ociosa podem atender à demanda sem pressões, o que permite operar com lucro e gerar caixa”, diz ele, lembrando que esse é o ciclo normal de recuperação de qualquer economia, e que não será diferente nesse momento. A história, diz ele, mostra que as recuperações são rápidas no Brasil.

O ex¬-presidente do Banco Central Francisco Lopes também tem um cenário mais otimista que a média do mercado e também olha para a teoria econômica para sustentar suas projeções, que indicam que o PIB deve subir 1,6% em 2017, resultado que será ancorado na indústria, que pode crescer 3,5%, puxada pelo setor de bens de capital e com ajuda do setor externo. Esse cenário, explica, já considera a troca do governo, e contempla queda do PIB de 2,3% neste ano, menos intensa que os 3,8% esperados pelo mercado. Lopes lembra que a economia passou por um ciclo recessivo, cujos efeitos foram sendo multiplicados (menos crédito levou a corte na produção, que provocou demissões, que reduziram a renda, que cortou o consumo, que levou a menos produção).

Quando a economia chega ao fundo do poço (momento que ele calcula que esteja próximo), os efeitos de aceleração entram em ação. Os agentes, diz ele, começam a perceber que talvez tenham exagerado e começam a se mover. “O investidor não olha a renda de hoje, mas a futura.” Para ele, há uma “feliz combinação” do momento de recuperação cíclica com a mudança no cenário político, o que potencializa os efeitos positivos do ciclo.

Além desse fenômeno cíclico, Lopes aponta a apreciação do real (que permitirá uma queda mais acentuada da inflação e, consequentemente dos juros), o setor externo (recuperação das exportações em valor e volume) e o efeito da inflação passada sobre a massa salarial como elementos concretos que podem dar fôlego à retomada. “Quando a inflação acelera, o poder de compra dos salários cai. Agora, ocorrerá o contrário. Na correção dos salários, a inflação futura será menor, o que ajuda a demanda”, diz Lopes, com a concordância de Mendonça de Barros.

Para Mendonça de Barros, Temer vai, no máximo, construir uma agenda de ideias, sem espaço para aprovar reformas. “Mas uma equipe séria na Fazenda e no Tesouro, comprometida com uma gestão fiscal austera, já inverte a expectativa.” Essa reversão, somada ao espaço aberto pela inflação, permitirá uma redução dos juros importante, pondera. Oliveira, do Fibra, vê espaço para corte de juros já no segundo semestre deste ano, e essa é uma das premissas do seu cenário de crescimento de 1% no ano que vem.

Apenas pela herança do último trimestre de 2016 (que já será melhor, diz ele), a economia em 2017 cresceria 0,4% nas suas contas. O resto viria com ajuda do setor externo e uma fraca recuperação da demanda interna. Com a eventual troca do governo e consequente redução das incertezas, a absorção doméstica pode crescer mais. Juros menores abrem espaço para liberação maior de crédito, o que ajuda consumo e investimento, pondera Oliveira.

Na avaliação da LCA Consultores, a aprovação do pedido de abertura do processo de impeachment da presidente por ampla margem reforçou a perspectiva de troca de governo e “sinalizou maior probabilidade de recomposição, ainda que gradual e parcial, das condições de governabilidade”. Nesse cenário, que hoje tem 65% de probabilidade na avaliação da consultoria, o PIB pode crescer 1,5% em 2017.

Entre as razões para um crescimento maior está a perspectiva de mudança na política cambial, o que poderia acelerar o recuo da inflação e o início de uma retomada da atividade, ainda que com riscos à indústria. Bráulio Borges, economista-¬chefe da LCA, não vê muito espaço para aprovação de reformas estruturais em função das eleições de outubro, mas acredita na adoção de medidas de menor apelo popular, como autonomia do BC, concessões ou privatizações e uma forte desvinculação de receitas, o que permitiria corte de despesas.

Fonte: Valor Econômico