Por Yan Boechat

A indústria química brasileira vive um momento peculiar. Enquanto assiste a um crescimento vigoroso e contínuo da demanda por seus produtos, não há o que faça o setor ter apetite para tirar do papel os investimentos necessários para ampliar a oferta – nem mesmo o crédito farto e barato prometido pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social para esse importante segmento da indústria brasileira.

Como resultado dessa equação mal resolvida, o país assiste a uma invasão de produtos importados, que, no ano passado, atingiu a marca histórica de R$ 28 bilhões, o equivalente a quase uma vez e meia todo o saldo da balança comercial brasileira em 2012. “Está tudo parado. Precisamos decidir se teremos uma indústria forte em um setor tão estratégico quanto o químico ou se nos tornaremos simplesmente um importador”, diz Flávia Coviello, diretora de economia e estatística da Associação Brasileira da Indústria Química.

Até há pouco mais de três anos, Flávia e boa parte dos associados da Abiquim avistavam um horizonte bem menos sombrio para esse setor que vem perdendo participação no PIB brasileiro desde 2004 – hoje ele representa cerca de 2,5% do Produto Interno Bruto do país, um ponto percentual a menos do que há oito anos. A expectativa era de que a crescente demanda por produtos químicos no Brasil faria a indústria investir quase R$ 170 bilhões entre 2010 e 2020 para ampliar sua oferta. Naquele ano, projetos de grande porte começaram a ser desenhados e a perspectiva de fartura com o gás natural proveniente do pré-sal criou quase um euforia no setor.

Mas havia uma pedra no caminho. A rápida evolução na produção de gás não convencional, o gás de xisto (ou shale gas), nos Estados Unidos, alterou de forma profunda os planos de investimento das principais empresas químicas, sejam elas de capital nacional, sejam de capital externo. Por conta disso, investimentos de cerca de R$ 11 bilhões, que eram tidos como certos há dois anos, estão em suspenso.

A maior parte deles está concentrada nas obras do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro, o Comperj. A Braskem, a maior empresa do setor, decidiu adiar para 2014 a decisão de participar ou não do projeto em companhia da Petrobras. A estimativa do mercado é de que apenas esse investimento consumiria algo como R$ 5 bilhões. A Abiquim ainda avalia que outros R$ 2,7 bilhões deverão ser investidos no complexo se todos os projetos saírem do papel. Carlos Fadigas, presidente da Braskem, afirmou que a companhia estuda retomar seus investimentos no Brasil. “Estávamos pedindo medidas de incentivo ao governo. Com a desoneração do PIS/Cofins, vamos fazer nossa parte”, disse ele ao Valor no início do mês, sem, no entanto, precisar datas ou valores.

A Braskem espera, na verdade, que o governo garanta uma redução no preço do gás natural para embarcar no projeto. Enquanto isso não acontece, a companhia vai para onde o gás está mais barato: a América do Norte. No ano passado a Braskem anunciou investimentos de US$ 3,2 bilhões em uma fábrica de etileno no México, que será inaugurada em 2015.

Quem também decidiu segurar os planos foram a Dow e a Mitsui. As duas empresas optaram por adiar a segunda fase de investimentos na Santa Vitória Açúcar e Álcool, uma parceira das companhias na produção de biopolímeros a partir da cana de açúcar em Minas Gerais. O investimento seria de US$ 1 bilhão e foi adiado porque a Dow decidiu concentrar seus esforços em regiões onde há fartura de gás natural a preços baixos, como nos Estados Unidos.

Hoje a Abiquim estima que estejam sendo investidos em média cerca de R$ 5 bilhões ao ano no setor. É dinheiro voltado para projetos que ainda estão em execução, a maior parte deles investimentos da Petrobras em novas plantas petroquímicas. A exceção é a Basf, que está investindo cerca de € 500 milhões na construção do complexo de Ácido Acrílico em Camaçari (BA), o maior investimento da história da companhia no país e que deve entrar em operação em 2014.

Há também uma boa parcela de recursos sendo aplicados em manutenção e modernização das unidades, sem necessariamente ampliação da produção. “É muito pouco. Para que conseguíssemos reduzir o risco de desindustrialização do setor seria preciso ao menos três vezes mais do que isso”, diz Fátima.

O primeiro anúncio de investimento novo no setor neste ano só ocorreu em março, quando a alemã Lanxess informou que colocaria R$ 200 milhões em sua fábrica de Triunfo (RS). A companhia quer converter sua unidade para passar a produzir a borracha utilizada nos chamados “pneus verdes”, de alto desempenho. Hoje a fábrica de Triunfo só produz borracha para a fabricação de pneus convencionais. “O Brasil é considerado estratégico e está entre os mais importantes entre os emergentes”, disse ao Valor Werner Breuers, integrante do conselho de administração da companhia durante o anúncio do investimento.

Apesar do cenário pouco animador, há esperança de que a indústria química brasileira volte a ampliar sua capacidade de produção. Boa parte desse otimismo está calcado na expectativa de fartura de gás natural e petróleo da camada pré-sal. Se houver oferta de energia e matéria-prima a preços competitivos, acreditam especialistas do setor, os investimentos voltarão com vigor. “Em 10 anos eu acredito que teremos um cenário completamente diferente”, diz Fátima Coviello, da Abiquim. “Com boa infraestrutura, gás e nafta temos condições de nos mantermos entre os maiores produtores do mundo no setor químico.”