Anunciada como uma das principais apostas do setor químico brasileiro na virada da década, a química verde, principalmente aquela obtida por meio de insumos provenientes da cana-de-açúcar, também sofre com os efeitos do aumento da produção de gás natural não convencional nos Estados Unidos, o gás de xisto. Assim como em diferentes segmentos da indústria química, projetos que estavam prontos para sair do papel voltaram para as gavetas e as previsões são de que eles devem permanecer por lá até que os custos de produção no Brasil se tornem mais competitivos. “Estamos percebendo que, no nosso caso, a química verde está se posicionando em um segmento de nicho, muito focado”, diz Alexandre Elias, diretor de Renováveis da Braskem, a maior produtora de etileno verde do país, uma das matérias primas para a indústria de embalagens plásticas.

A explicação para essa mudança no cenário, claro, está nos custos de produção. Fabricar produtos químicos com base em biomassa, como no caso da cana-de-açúcar, ainda é mais caro do que utilizando insumos fósseis, como a nafta e o gás natural, por exemplo. No caso do eteno verde, da Braskem, os custos de produção são superiores mesmo quando comparados aos preços de gás natural não convencional americano. Elias, da área de renováveis da companhia, evita falar sobre a diferença nos preços, mas admite que não há competitividade quando o único parâmetro é preço. “Nosso mercado está ligado a empresas que querem se diferenciar, que estão preocupadas com a sustentabilidade”.

Hoje a Braskem tem capacidade de produzir 200 mil toneladas de eteno verde ao ano, mas apenas 70% estão saindo de sua fábrica hoje. Quase toda a produção, pouco mais de dois terços, segue para o exterior, em especial Alemanha e Japão, para serem transformadas em embalagens verdes. Apesar de ter anunciado a ampliação de capacidade de produção nessa área, a Braskem acabou adiando os planos de novos investimentos.

O maior projeto era para a construção de uma fábrica de polipropileno verde. A companhia pretendia erguer uma unidade para produzir cerca de 30 mil toneladas no Rio Grande do Sul, mas acabou por postergar o investimento. Optou por focar seus esforços em uma unidade de produção de etileno no México, onde vai investir R$ 3,2 bilhões. “Mas nem tudo está parado, vamos investir R$ 3 milhões em nossa unidade de etileno para oferecer insumos para os fabricantes de embalagens flexíveis”, diz Elias.

A Dow Química e a Mitsui, que se uniram para produzir biopolímeros a partir de cana-de-açúcar, também decidiram seguir o mesmo caminho da Braskem e adiaram investimentos. As duas companhias pretendiam aplicar US$ 1 bilhão na ampliação de uma unidade de polietileno verde em Minas Gerais. Mas assim como a Braskem, a Dow optou investir em regiões com maior fartura de gás natural, como os Estados Unidos.

Mas, projetos de menor porte, continuam a ser anunciados. Em abril deste ano, a americana Amyris, uma das principais empresas de química verde do mundo, anunciou que pretende ampliar a parceria que mantém com a Cosan. A joint venture, batizada de Novvi, produz óleos lubrificantes a partir de insumos renováveis. A companhia também anunciou que pretende iniciar a produção de diesel renovável a partir de uma nova parceria com a Cosan.

A viabilidade de novos projetos ligados à química verde, tendo como base a cana-de-açúcar, ainda não é um consenso. Na Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim), Fátima Coviello, diretora de Economia e Estatística, acredita que várias questões precisam ser equacionadas para que o mercado deslanche. Uma delas, claro, é a melhora de competitividade dos produtos derivados do etanol. Outra é a capacidade de fornecimento de matéria prima a preços estáveis, um eterno problema da indústria sucroalcooleira. “Eu mesmo não apostaria nesse segmento, sei que por enquanto ele será muito de nicho”, diz o próprio diretor de renováveis da Braskem.